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Análise de Redes Sociais na prática (Parte - I)

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É possível medir o desempenho de redes sociais? Como saber se elas estão facilitando ou prejudicando a empresa? A partir de uma abordagem relacional, o colaborador Fernando Guarnieri nos mostra o caminho, neste primeiro artigo da série.

As redes sociais estão em toda parte - e não só no mundo virtual. Existem redes funcionais e disfuncionais, isto é, redes que facilitam e redes que prejudicam o desempenho de uma empresa. Portanto, é fundamental revelar estas redes e medir seu desempenho. É isto que a ARS – Análise de Redes Sociais – faz.

 

Assim, de certa forma, o presente texto complementa artigo anteriormente publicado aqui no Intranet Portal por Sérgio Storch, em sua coluna sobre “Gestão do Conhecimento”. E tem o intuito de mostrar, de modo também introdutório, como se dá a Análise de Redes Sociais na prática. Para isso, vamos partir de um exemplo que nos ajudará a entender os principais conceitos e métricas da ARS para, em um segundo momento, examinarmos o caso de aplicação prática em uma empresa.

 

O artigo está divido em três partes. Na primeira, mostro, por meio de um exemplo, os primeiros passos da ARS, que já permitem a identificação dos principais atores dentro da rede. Na segunda parte, ainda por meio do exemplo, irei mostrar como identificar grupos e definir seus “papéis”. E, na terceira parte, irei mostrar como isso tudo aparece em uma análise de uma empresa real - e como essa análise permite repensar a empresa, seu desempenho e sua estratégia.

 

A ARS parte de uma teoria “relacional” da sociedade, isto é, ela procura explicar o comportamento social e as instituições tendo como referência as relações entre pessoas, grupos ou organizações. O primeiro passo na análise é a formulação do problema ou questão que queremos resolver. Como exemplo, vamos supor que somos uma empresa de desenvolvimento de sistemas e que nosso problema está ligado ao fluxo de informações no interior da empresa, a existência de “falhas de comunicação”, de “pouca integração”, ou de processos ineficientes de disseminação de informações.

 

Identificado nosso problema é necessário coletar os dados para a análise. Na ARS o tipo de dado, como a teoria, também é relacional. Enquanto em uma análise mais convencional estaríamos preocupados em explicar a deficiência do fluxo de informações por meio de atributos individuais, na ARS iremos buscar a resposta nas relações entre os indivíduos. Em geral os dados são coletados por meio de entrevistas ou por meio de análise de documentos. Nas entrevistas são feitas perguntas do tipo: “com quem você troca informações que o ajudam na execução de seu trabalho?”. Cada entrevistado aponta, em uma lista das pessoas da organização, aquelas com as quais troca informações[1], podendo também apontar a freqüência com que essas trocas ocorrem. As respostas de todos entrevistados forma uma matriz como esta:

 

 

João

Antonia

Maria

Eduardo

Pedro

Paulo

Henrique

Ana

Marcelo

Ricardo

João

 -

1

0

0

0

0

0

0

1

1

Antonia

1

 -

0

0

1

1

0

0

0

0

Maria

0

0

 -

1

1

1

1

1

0

0

Eduardo

0

0

1

 -

1

0

1

1

0

0

Pedro

0

1

1

1

 -

0

1

0

0

0

Paulo

0

1

1

0

0

 -

0

1

0

0

Henrique

0

0

1

1

1

0

 -

0

0

0

Ana

0

0

1

1

0

1

0

 -

0

0

Marcelo

1

0

0

0

0

0

0

0

 -

0

Ricardo

1

0

0

0

0

0

0

0

0

 -

 

Nesta matriz temos, na primeira linha e na primeira coluna, o nome dos integrantes do grupo que estamos estudando, que pode ser apenas um departamento ou a empresa como um todo. Cada célula desta matriz mostra se há ou não troca de informações entre o indivíduo “linha” e o indivíduo “coluna”. No exemplo, vemos que João e Antonia trocam informações, pois a célula correspondente à linha “João” e a coluna “Antonia” está marcada com o número 1, já Antonia e Eduardo não trocam informações pois a célula correspondente à linha “Antonia” e à coluna “Eduardo” está marcada com um 0[2]. É desta matriz que iremos tirar as métricas que orientarão a análise bem como o sociograma[3], isto é, a representação gráfica da rede, que mostramos na figura abaixo:

 

 

Este sociograma permite entendermos alguns conceitos e algumas medidas de propriedades estruturais e locacionais utilizadas em ARS. Cada ponto vermelho no sociograma é um indivíduo ou ator na linguagem das redes. Cada linha representa um vínculo entre atores[4].  Um par de atores conectados por um vínculo forma uma díade e uma trinca de atores conectados forma uma tríade, um número maior de atores e seus vínculos forma subgrupos. A análise da rede irá se basear na localização dos atores nos subgrupos ou na rede como um todo, assim como em algumas das propriedades destes grupos.

 

O sociograma acima é um retrato de momento da rede de troca de informações na organização de nosso exemplo. Ele mostra quem troca informações com quem. A primeira coisa em que iremos focar é na identificação dos atores “mais importantes” da rede. Os atores mais importantes ocupam posições estratégicas na rede. Existem várias medidas de “importância” e aqui iremos nos concentrar em três delas, ligadas ao conceito de centralidade[5].

 

Uma forma de definir a centralidade de um ator é pensá-la em termos da “atividade” de um ator, isto é, a quantidade de vínculos que ele possui, sendo o ator mais ativo aquele que possui o maior número de vínculos comparado com os demais. O número de vínculos nos fornece o grau da centralidade de um ator. O grau de cada ator em nosso exemplo é dado na tabela abaixo:

 

Ator

Grau

Maria

5

Eduardo

4

Pedro

4

João

3

Paulo

3

Henrique

3

Ana

3

Antonia

3

Marcelo

1

Ricardo

1

 

 

Portanto vemos que, pelo critério do grau, o ator mais importante da rede é Maria, seguida de perto por Eduardo. Isso quer dizer que a Maria é mais ativa no processo de disseminação de informações. Mas podemos ver pelo sociograma que, apesar de numerosos, os vínculos de Maria estão limitados ao seu subgrupo, isto significa que apesar de ativa se retirarmos Maria da rede (como no sociograma modificado, abaixo) isso não terá grande impacto no alcance da informação pois seus vínculos são de certo modo redundantes.

 

 

 

Neste sociograma, fica evidente uma outra medida de centralidade: a intermediação ou betweenness, em inglês. Neste caso a centralidade está relacionada  ao fato de um ator conectar subgrupos que de outro modo estariam desconectados. No exemplo, se retirarmos Antonia da rede, teríamos dois grupos desconectados[6]. Antonia funciona como broker, permitindo que a informação circule por toda a rede e, apesar de ter poucos vínculos diretos, é uma figura essencial no processo de disseminação de informações.

 

Outra medida de centralidade está ligada à “rapidez” com que um ator interage com outros. Trata-se da centralidade por proximidade: quanto menor o número de “passos” para que um ator chegue a outro, maior sua proximidade.

 

Para compreender melhor essa medida precisamos introduzir o conceito de distância em redes. Um caminho que conecta dois atores é a seqüência de nós e laços que levam de um a outro. No nosso exemplo existem cinco caminhos entre João e Eduardo: (João - Antonia – Pedro – Henrique - Eduardo ) ou (João – Antonia – Paulo – Ana – Eduardo) ou (João - Antonia – Pedro – Maria - Eduardo ) ou (João - Antonia – Paulo – Maria - Eduardo ) ou (João – Antonia – Pedro – Eduardo). Esses caminhos têm, respectivamente, 5, 5, 5, 5 e 4 passos. Chamamos de distância o menor caminho, também conhecida como geodésica. Um ator tem mais proximidade se sua geodésica for a menor entre todos os atores. No nosso exemplo, o ator com a maior proximidade é Pedro, que depende menos de outros para transmitir uma informação, estando no máximo a 3 passos de distância de qualquer outro ator na rede.

 

Assim identificamos os três atores mais importantes nesta rede: Maria, pelo número de conexões; Antonia, pelo seu papel de intermediária na disseminação de informações; e Pedro, pela sua proximidade.

 

Ao mesmo tempo, podemos considerar as medidas de centralidade de todos os atores para inferir algumas propriedades da rede como um todo. Se, por exemplo, somarmos os graus de todos os atores e dividirmos pelo número de atores, teremos o grau médio da rede, que, quando padronizado é uma medida de densidade da rede. A rede de nosso exemplo tem baixa densidade, isto é, os atores estão pouco conectados, o que, no nosso caso, prejudica o fluxo de informações.

 

Existem medidas análogas para as centralidades por intermediação e proximidade. Essas medidas nos ajudam a ver a concentração na rede, isto é, a sua dependência com relação a determinados nós. Uma rede “dependente” é mais sujeita a falhas e a “sabotagens”. No nosso exemplo vemos claramente que a rede depende de Antonia cuja ausência ou “má vontade” pode prejudicar o fluxo de informações.

 

Desta primeira análise já podemos tirar algumas conclusões e fazer algumas recomendações para a nossa empresa hipotética. Concluímos que o fluxo de informações pode ser otimizado, pois a rede é pouco coesa, alguns atores tem grande redundância de atividades e existe grande dependência sobre um só ator. Algumas recomendações: repensar o papel de Maria que, por ter uma grau muito alto, pode estar sobrecarregada ou, pelo contrário, estar utilizando mal seu tempo; aumentar a redundância da rede conectando Paulo ao Eduardo e Maria à Antonia; diminuir a dependência integrando a dupla Marcelo e Ricardo aos demais.

 

Em um próximo artigo iremos mostrar como identificar grupos na rede, como identificar papéis deste grupos e o seu impacto no desempenho da empresa.

 

Até lá, conto com seus comentários para enriquecer ainda mais o debate em torno deste tema tão importante quanto fascinante.



[1] A lista fechada é utilizada quando se conhece os limites de uma rede. Quando as fronteiras da rede não estão bem estabelecidas é melhor deixar a questão aberta. Outros métodos de coleta de dados envolvem o exame de documentos como o registro de transações, o registro de troca de e-mail ou então a lista de amigos em um site de relacionamento.

[2] Para facilitar as coisas, consideramos uma rede onde as relações entre os indivíduos são simétricas, isto é, se o indivíduo A reporta uma relação com o indivíduo B então B tem a mesma relação com A. Isso nem sempre é verdadeiro, pois um indivíduo A pode dizer que se relaciona com B e este afirmar o contrário, neste caso a direção da relação é importante.

[3] O sociograma é uma “invenção” de Jacob Moreno, pai da sociometria, que é a precursora da Análise de Redes Sociais.

[4] Quando o vínculo é direcional, costuma-se empregar uma seta na ponta da linha representando a direção do vínculo.

[5] Além da centralidade, outra medida de importância é a do prestígio de um ator. Enquanto a centralidade de um ator pode ser examinada em uma rede simétrica, o prestígio só aparece em redes direcionais, pois está ligado ao número de vínculos que um ator recebe.

[6] componentes na linguagem das redes

 

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SOBRE O AUTOR: Fernando Guarnieri é Diretor de Formação, Pesquisa e Promoção Institucional da Fundação ITESP. Doutorando e mestre em Ciência Política pela USP, estuda e trabalha com Análise de Redes Sociais há mais de cinco anos, tendo utilizado a ARS na academia, para estudar a formação de grupos políticos e, em empresas, para auxiliar nos processos de Gestão do Conhecimento e de Inteligência Competitiva.

Created by Colaborador
Last modified 28/03/2008 - 11:17

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