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Mídias Sociais e Governo

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Presidência da República promove encontro para discutir essa relação - Raphael Perret, nosso colaborador, estava lá e conta como foi.

A Presidência da República organizou, no dia 14 de julho, em Brasília, o Fórum sobre Mídias Sociais, com o objetivo de estimular o debate do uso estratégico da internet no governo. A programação do evento incluiu: uma palestra da professora Beth Saad, da USP, discutindo a comunicação de governo na chamada web 2.0; a exposição das iniciativas dos ministérios da Cultura e da Saúde nas mídias sociais; e a apresentação do Blog do Planalto. 

O fórum começou com as falas do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Franklin Martins. Temporão demonstrou estar antenado. Disse, por exemplo, que se 7,3% das pessoas já tiveram experiência sexual com alguém que conheceram via internet, então o Ministério da Saúde precisa estar dentro deste ambiente.  

Já Franklin Martins trouxe uma visão mais tradicional, comparando o mundo antigo com o novo pelo viés do jornalismo. Ele mesmo admitiu não ter intimidade com o assunto, mas destacou a importante mudança na dinâmica da informação. Defendeu a imprensa, “fundamental para a consolidação da democracia ao tornar públicos os debates”, mas alertou que a internet e as redes sociais estão apontando as falhas do jornalismo. No fim, Franklin destacou dois pontos: a internet está questionando o monopólio da agenda da sociedade, que, antes, era o maior poder político da imprensa (será uma nova fase para a hipótese da agenda setting?); e o barateamento da produção do jornalismo com a internet. 

As mídias sociais são dialógicas 

Teve início, então, a palestra da professora Beth Saad. Ela destacou as principais características das novas ferramentas e como elas devem ser utilizadas em um modelo de comunicação governamental que deve primar por valores como transparência, referência, utilidade, prestação de serviços, e a visão de que o cidadão é diferente de consumidor.  

Uma das primeiras declarações de Beth Saad foi evitar o que ela chamou de “fetichização” do blog: segundo ela, “o blog faz parte das mídias sociais, mas não é tudo isso. Blog também é isso”. 

A professora afirmou que não basta entrar para o mundo das redes sociais. A instituição deve observar se a entrada será determinante para o trabalho. Como avaliar? Identificar a necessidade de mudança. Na verdade, de uma mudança cultural. Afinal, as mídias sociais não são monológicas, e sim dialógicas. Esta característica faz toda a diferença. 

Aproveitando o público formado, majoritariamente, por profissionais de comunicação de órgãos do Governo Federal, Beth Saad mostrou o quanto a administração pública está distante dos cidadãos conectados: os únicos sites governamentais que aparecem entre os 100 sites mais visitados no Brasil são os da Caixa Econômica Federal, do Ministério da Fazenda e dos Correios, todos abaixo do 26º lugar.  

No momento das perguntas à palestrante, alguns pontos interessantes foram levantados. Perguntou-se: “Mas como as instituições se protegem?”. Saad: “Não se protegem, sorry. As mídias sociais não podem ser vistas como uma trincheira de defesa. Precisam ser transparentes”. Notou-se um burburinho na plateia com esta declaração da professora. Entendi como uma reação normal e esperada de um segmento da sociedade brasileira (governo) imerso demais na “cultura do segredo”, em detrimento da transparência que deve (ou deveria) nortear a administração pública. 

Voltou, neste momento, uma outra polêmica, iniciada ainda na fala de Franklin Martins. O ministro havia dito que a função da edição de notícias continuará  sendo importante mesmo com o avanço da internet. O tema foi trazido por um profissional da UFRJ, e Beth Saad afirmou: “No mundo 1.0, a edição realmente é importante. Mas, na web 2.0, jamais”.  

Concordo que deve haver transparência máxima no caso dos órgãos públicos. Mas é bom deixar claro que uma edição mínima precisa existir, mesmo que seja para dividir a informação em níveis, sempre em prol da transmissão eficiente da mensagem. Um decreto, por exemplo, deve ser publicado na íntegra, mas um texto explicativo, mais ameno que o documento legislativo, pode acompanhá-lo, facilitando a compreensão do leitor. 

Outra pergunta importante veio da Câmara dos Deputados. Durante a apresentação, Beth Saad disse que as instituições deveriam estimular que seus funcionários participassem mais das redes sociais. A colega, então, questionou: “como lidar, então, com a polifonia que virá disso?”. A professora respondeu que deve haver, na instituição, uma estratégia de comunicação organizacional, capaz de uniformizar o discurso. “Caso contrário, é melhor nem incentivar os funcionários”.  

Não sei se a mais eficiente comunicação organizacional é capaz de “uniformizar os discursos”. Afinal, cada funcionário tem sua mentalidade, seus princípios e sua bagagem cultural, e tudo isso vai influenciar na sua decisão de escrever o que achar em sua rede social. Mais importante, a meu ver, é estimular, sempre, a clareza dos profissionais: que eles tenham a liberdade de emitir suas opiniões, mas que eles nunca escondam seu papel na administração pública.  

Casos dos Ministérios da Saúde e da Cultura: muito instigantes, mas com apresentações rápidas 

A apresentação seguinte foi do Ministério da Saúde, sobre a participação do órgão nas redes sociais. Os principais exemplos foram as campanhas de doação de órgãos e da vacinação contra a rubéola e o esclarecimento de dúvidas sobre a gripe suína. O ministério fez uso do Orkut, do Twitter e até do ambiente conflituoso dos comentários do Globo Online, participando proativamente ou atendendo as solicitações dos cidadãos. Eu mesmo recebi uma visita do ministério em meu blog: a representante me convidou a participar de uma campanha de doação de sangue (tema do post que motivou o comentário do ministério). No final, uma revelação: um vídeo que circulou recentemente na internet com o humorista Danilo Gentili, do programa televisivo CQC, fazendo piadas sobre cigarro, foi uma ideia do Ministério da Saúde. O objetivo era fazer a campanha antitabagista se aproximar dos jovens por meio da linguagem utilizada por uma celebridade adorada pelos adolescentes.  

Em seguida, duas apresentações do Ministério da Cultura. A primeira, feita pelo gerente de Informações Estratégicas, José Murilo, sobre o Xemelê, “espaço para compartilhamento de soluções que promovem a interatividade e os processos colaborativos na rede” (conforme diz o sítio do sistema), e o Cultura Digital, rede social produzida pelo órgão com o objetivo de atrair pessoas interessadas em discutir a convergência entre a cultura e a tecnologia. A segunda apresentação foi conduzida pelo assessor de comunicação Daniel Merli e tratava das iniciativas, na web 2.0, sobre a discussão sobre as mudanças na Lei Rouanet, por meio do uso de um blog e do monitoramento constante do que era publicado na mídia, com a produção de respostas sempre que necessário, além de contas criadas no Twitter e no YouTube. As duas palestras trouxeram assuntos pertinentes e casos muito interessantes, mas foram muito rápidas. Um novo seminário somente com o Ministério da Cultura seria bastante enriquecedor. 

O Blog do Planalto vem aí 

A última apresentação do fórum foi da própria Secom, sobre o aguardado Blog do Planalto. Acompanhado da equipe do blog, o secretário de imprensa Nelson Breve explicou que foi detectada a necessidade de entrar nas mídias sociais, mas não se sabia como. O blog de transição de governo do então presidente eleito Barack Obama foi o inspirador da ideia.  

Assim, foi montada a equipe e iniciou-se uma consulta pública sobre o que os cidadãos esperavam do Blog do Planalto (que, embora frise que será do governo e não de Lula, a Secom compreende que ele seja visto como uma forma de relacionamento do presidente). Alguns dos dados: 83% dos leitores querem informações sobre ações da presidência, e mais de 80% acham que o blog deve ser aberto a comentários. Entretanto, esta funcionalidade não será implementada por enquanto. A Secom promete buscar a interação por outros meios. Se, por um lado, a ausência tenha sido justificada pela falta da estrutura adequada para dar suporte à participação dos internautas, como cidadão lamento a inexistência de comentários no blog. É claro que esta “falha” será alvo de críticas. Uma solução precisa ser encontrada. 

Questionado sobre um boato de que Lula teria um perfil no Twitter, Nelson Breve disse que este é um plano, mas que só será avaliado depois do lançamento do Blog do Planalto.  

Conclusões 

O fórum foi uma boa iniciativa do governo. A presença de dois ministros mostrou a importância estratégica que as mídias sociais vêm ganhando dentro da administração pública. E elas são fundamentais, para a disseminação de informações em nichos e grupos sociais mais específicos. Porém, os exemplos ainda são incipientes e o próprio blog do Planalto terá uma penetração ainda tímida no universo das mídias sociais, em contraponto com os recursos tecnológicos existentes.  

A comunicação pública precisa ser proativa e global. Ainda que poucas, as iniciativas do governo federal já são casos de sucesso e precisam ser difundidas em maior escala. Discuti-las, observando-se as dificuldades encontradas e as ideias mais produtivas, é essencial para que outros órgãos do governo – também nas alçadas estadual e municipal, assim como nos outros poderes – possam também praticar ações nas mídias sociais, multiplicando a transparência tão desejada para o poder público.

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SOBRE O AUTOR: Raphael Perret é Jornalista, Mestre em Informática e funcionário do BNDES. Também mantém o blog Butuca Ligada.

 

Created by Colaborador
Last modified 13/08/2009 - 00:12

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