Ingredientes invisíveis da sinergia
Acontece sinergia sempre que a resultante da interação de diferentes componentes atende a um propósito mais elevado do que a soma dos seus efeitos individuais. Este é o caso do cloreto de sódio, do ar que respiramos e da água que bebemos, exemplos naturais de sinergia química em que se combinam gases, para em última instância, produzir a vida. Com a mesma naturalidade alguns seres vivos, como insetos, peixes e aves nos dão maravilhosos exemplos.
Além das lições da natureza, a sinergia se encontra em coisas feitas pelo homem como um molho de varetas, uma vassoura, uma esteira de palha, a limalha de ferro ou uma liga metálica. Podemos dizer então que na natureza essa forma de interação é muito comum e seria bom se os líderes conseguissem seguir seus exemplos. Entretanto, os líderes às vezes reúnem componentes operacionais, como recursos, experiência, conhecimento, competências e habilidades de diferentes origens e, como se fossem os únicos ingredientes necessários, os combinam na tentativa de obter sinergia. Eles esquecem os ingredientes adicionais invisíveis nos processos sinérgicos da natureza. Em geral, são ingredientes imperceptíveis, muito óbvios, ou implícitos, mas que sem eles não funcionaria a “mágica” da sinergia do mundo em que vivemos.
Em cada caso de sinergia, natural ou produzida pelo homem, podemos identificar pelo menos um ingrediente adicional. É o caso da faixa que amarra as fibras e da haste de sustentação na vassoura; a técnica de entrelaçamento da esteira; o poder magnético do imã; pressão e calor numa reação química e na produção de uma liga metálica. O desafio do líder é, então, descobrir que ingredientes a mais ele precisa adicionar aos componentes operacionais para obter sinergia. Fazendo um paralelo com a natureza, ele descobrirá que o entrelaçamento, a amarração, o calor e a pressão podem ter como fatores humanos correspondentes: estímulos, atitudes, comportamentos e hábitos. Há sempre a possibilidade destes fatores serem aspectos do caráter, confiança e colaboração, fazendo com que a interação entre os componentes operacionais atenda a propósitos mais elevados do que a soma dos seus efeitos individuais, produzindo assim a sinergia.
Não haverá interesse em manter proximidade de qualquer indivíduo ou organização que não demonstre um bom caráter. Uma vez percebido o caráter, procura-se confiar e ser confiado. Confiança é algo que depende do contexto, da atitude do indivíduo com relação aos desafios que motivaram a parceria. Uma vez que existam motivos para se confiar, vai-se em busca de apoio ou colaboração. Um caráter muito forte pode se apresentar por excesso de autoconfiança e dificultar a criação de uma confiança mútua. O excesso de confiança mútua, sem a disposição para colaborar, faz com que uma das partes deixe com a outra a maior cota na realização das tarefas. A colaboração excessiva sem confiança induz um dos parceiros ao esforço para realizar o que tem de ser feito, sem aguardar a colaboração do outro em quem ele nem mais se preocupa se confia ou não.
Segundo Stephen Covey, cada um de nós nasceu com diferentes talentos e habilidades. Gastamos a maior parte do nosso tempo tentando afiar e desenvolver esses talentos para maximizar nosso próprio potencial e nossa contribuição para o bem social. Mas raramente pode alguém conseguir maximizar seus talentos trabalhando enclausurado e sozinho. Neste mundo de exagero de especialização e complexidade crescente, é raro o indivíduo que consegue grande sucesso trabalhando independentemente por si só.
Não existe forma de conquistar, desenvolver ou manter relacionamentos cooperativos sem firmeza de caráter. Não há como conseguir colaboração interpessoal sem desenvolver com sucesso a eficácia pessoal. Não há como conseguir colaboração sem primeiro conquistar a confiança, que por sua vez depende de um estímulo generalizado. Com a eficácia conseguimos independência pessoal, capacidade de superar isoladamente as vicissitudes, as dificuldades e os desafios do dia-a-dia. Uma vez conquistada esta capacidade, estamos aptos a participar de processos colaborativos em que se destaca a interdependência. Com a colaboração aprendemos a superar, em conjunto, dificuldades e desafios muito maiores do que conseguiríamos isoladamente, de forma independente, mesmo se usássemos toda nossa capacidade, mesmo que lançássemos mão de toda a nossa eficácia pessoal.
Sinergia, no sentido de trabalho em conjunto, vai sempre acontecer quando pessoas se reúnem para realizar algum projeto, porém precisamos evitar que ela seja negativa, cuidando dos ingredientes invisíveis para conseguir o maior valor agregado possível com o esforço colaborativo.
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SOBRE O AUTOR: Sérgio Lins é autor do livro "Sinergia Fator de Sucesso nas Realizações Humanas". Sérgio Lins, da Editora Campus, 2005 http://sinergia.zip.net e http://sinergista.zip.net. Sérgio também é autor do livro "Transferindo Conhecimento Tácito: uma abordagem construtivista", da Editota E-papers: http://tacito.zip.net

