Pequenas idéias, grandes negócios
Devo o título deste artigo a Humberto Lusvarghi, participante de um workshop de criatividade que fiz para a BASF. Foi numa conversa de intervalo, dessas regadas a “suquinhos” e sanduíches, que o Humberto me interpelou para falar sobre a desmistificação do processo criativo. O ponto é o seguinte: a originalidade, as idéias extraordinárias, às vezes ajudam. Às vezes são fundamentais. Mas nem sempre.
Há uma noção de que as melhorias – também chamadas de inovações incrementais, voltadas para melhorias, redução de custos, etc. – são fruto de muitas pequenas idéias, enquanto que a inovação radical – normalmente voltada para novos produtos ou estratégias de marketing – é fruto de uma grande idéia. Mas, no caso, não é a idéia que tem que ser grande: grande tem que ser o seu efeito.
Há diferenças que fazem toda a diferença, como a passagem do cadarço para o velcro nos tênis, por exemplo.
Quantas boas idéias, quantas inovações de fato lucrativas, pode-se ter trazendo idéias já consagradas de outros segmentos? A Springer Carrier, por exemplo, inovou sua estratégia de marketing trazendo do universo da decoração a idéia do show-room. Assim, hoje temos show-rooms de ar-condicionado, por que não?
Outro argumento em defesa das pequenas idéias vem dos consultores americanos Alan Robinson e Dean Schroeder, autores do livro Ideas Are Free: para eles, são as grandes idéias que tendem as ser copiadas rapidamente pela concorrência, pois chamam mais a atenção.
No fundo, precisamos redefinir a noção do que é uma grande idéia, pois a busca do ineditismo e da ousadia pode nos tolher a visão ou provocar idéias de difícil implementação. Não podemos nos deixar impressionar pela grandiosidade das idéias que caem em nossas mãos: elas não são necessariamente as mais rentáveis, são apenas as que mais aparecem.
É extremamente saudável para quem quer inovar conhecer o histórico de inovações. O processo criativo é desmistificado. Assim, além da famosíssima história do post-it, oriundo da cola que não colava, devemos ir atrás de histórias como a do Martini, um
clássico exemplo de uma companhia aérea americana que precisava reduzir custos: bastou deixar de oferecer Martini nos vôos matinais que se eliminaram as azeitonas
(produto perecível e portanto mais caro) e aproveitou-se o espaço que elas ocupavam na geladeira. Em tempo: o consumo matinal de Martinis já era mesmo irrelevante. Essa idéia foi dada por um comissário de bordo. E o que foi preciso para que ele a gerasse? Nada de arroubos de genialidade. Bastou estar atento, observar rotinas como processos mutáveis, conhecer o próprio trabalho.
Para as pessoas que utilizam, ensinam e facilitam processos de brainstorming (ou tempestade cerebral, o momento de expressar todas as idéias a respeito de um assunto, sem censura) vale lembrar que nesta fase, além das idéias absurdas, deve haver espaço para as idéias que – apesar de quebrar paradigmas – em sua essência são simples.
Na segunda fase do brainstorming, quando as idéias são agrupadas e selecionadas, a busca da grande idéia pode podar as pequenas. Além disso, o agrupamento das idéias pode ser perigoso: juntando idéias parecidas, poderemos perder de vista aquela pequena diferença que fará toda a diferença.
Outra forma de gerarmos idéias boas, rentáveis e não necessariamente grandiosas é técnica da “fertilização cruzada” . O nome, oriundo da biologia, fala justamente na nossa capacidade de obter inspiração em universos diferentes dos nossos, como no caso da Springer Carrier, citado acima. Assim, se a idéia do Martini veio da observação do cotidiano, inúmeras outras idéias surgem da observação do diferente.
Finalmente, é preciso estar preparado para a inovação. Em vendas e em atendimento costumam surgir inúmeras idéias, pequenas mas poderosas, freqüentemente geradas pelos próprios vendedores e atendentes. Muitas vezes essas idéias se perdem ou são utilizadas uma única vez pela falta de um canal de resgate e comunicação dessas idéias.
É uma pena. Afinal, com disse o Humberto, pequenas idéias também geram grandes negócios.
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>>> SOBRE A AUTORA: Gisela Kassoy é consultora, expert em programas de inovação e atua na elaboração e desenvolvimento de Workshops de Criatividade e Inovação, Equipes de Geração de Idéias, Programas de Sugestões, Gestão da Inovação e Formação de Facilitadores. Graduada em Comunicações, possui pós-graduação em Dinâmica de Grupos e inúmeros cursos no exterior.

