O link e o pé de alface
O que torna o ambiente web único? Parece uma pergunta com resposta óbvia, mas não é bem assim... Enquanto você pensa em alguma, aproveito para avançar um pouco mais.
Fiz essa mesma pergunta durante uma palestra que ministrei para os responsáveis pela criação, desenvolvimento e gestão de ambientes virtuais de diversos órgãos ligados ao Governo do Estado. Portanto, não era um público leigo.
Calor insuportável, ar condicionado pifado, fazendo com que todos, inclusive o palestrante, desejassem, com devoção, estar em outro lugar... Quando a palestra parecia derrotada, surgiu o slide com a pergunta: o que torna a web única? Surpresa! Ganhei a atenção da platéia, que resolveu esquecer um pouco o calor e o desejo pelo copo de cerveja gelada para pensar sobre isso também. E você? Já tem uma resposta?
SOBRE VÍNCULOS E PESSOAS
Relacionamento, informação, interatividade - foram essas as mais populares da platéia. O próximo slide que apresentei causou alguns risinhos e certo burburinho: em cima de um fundo branco, em letras azuis sublinhadas, estava escrita uma única palavra: Link.
A mais fabulosa contribuição da Web - e seu grande diferencial - é a capacidade de estabelecermos links: vínculos que sofrem mutações constantes, ampliações e personalizações.
O conceito de vínculo encerra uma série de desafios e um vasto campo de pesquisa e trabalho, esquecido por um tempo durante a onda puramente formal e fetichista dos "layouts bonitos e animados", e que agora parece ter retomado seu lugar de destaque. Indexadores, mapas de tópicos, web semântica, Wikipedia e a popularização de ambientes de relacionamento (vide Orkut) e adoção de comunidades de prática no meio corporativo; mostram que fomos chamar o cavaleiro negro para nos livrar do dragão do caos da informação. Este cruzado nada mais é que o nosso precioso Link.
O vínculo não é apenas a facilidade de linkarmos um bloco de informação, um asset, uma url a outra; sua importância está justamente na capacidade de criarmos o nosso repertório de vínculos, em desenvolvimento constante (como um organismo vivo) e podermos compartilhá-lo e acessá-lo em benefício de nosso aprendizado, entretenimento e desempenho profissional. A trama dessa teia de vínculos é feita por cérebros humanos, e os meios digitais devem servir para a construção de processos que organizem esses conjuntos dinâmicos, tornando-os fáceis de acessar e modificar. Assim, o vínculo maior que se pretende estabelecer é entre pessoas, pois são elas que possuem algo de extrema importância: o conhecimento. É justamente neste ponto que entra em cena o nosso pé de alface.
INTELIGÊNCIA COLETIVA E CAPITAL INTELECTUAL
Dias atrás, vi no jornal um excelente anúncio de um banco, que reproduzo aqui, ainda que de forma um tanto inexata... tratava-se da imagem de um solitário pé de alface e o seguinte texto: onde você vê uma alface, nós vemos um trator, uma indústria de pesticida e uma gôndola de supermercado. Pronto, o pé de alface não estava mais sozinho: carregava dentro de si toda a sua cadeia de valor.
Mas nós também possuímos uma cadeia assim, similar a do anúncio. Ela é formada por experiências e informações adquiridas ao longo de nossa vida, organizadas em uma intrincada rede de vínculos em nosso cérebro. O que é fascinante, nos meios digitais é a possibilidade, ainda pouco explorada e difundida, de construir uma "persona virtual", onde possamos montar e recuperar a nossa rede de vínculos e associações, absolutamente singular, como uma impressão digital, tornando-nos verdadeiros indexadores, reguladores e validadores do volume caótico de informações na Rede.
Os vínculos e interações entre essas "personas virtuais", por sua vez, passam a construir comunidades emergentes, criando organismos construídos da base para o topo, totalmente desprovidos de um comando central e representativo de demandas genuínas de uma inteligência coletiva (também corporativa, por que não?), formada pelos vínculos entre essas "personas".
Essa emergência é alardeada por um dos grandes pensadores dos meios digitais, Steven Johnson, em seu livro Emergência e já é uma realidade que interfere no consumo, nos meios de comunicação e na política. A possibilidade de nos tornarmos Portais de nós mesmos só é possível através dos meios digitais, sobre tudo a Internet , que permite a construção, difusão e modificação dinâmica. Os Portais de relacionamento, como o Orkut - que para alguns desavisados ainda parece algo fútil -, é um belo ensaio (ainda bastante tímido) da criação de "personas virtuais" e seu modelo de organização e vínculo pode (e deve) ser analisado com atenção por empresas que pretendem fomentar a construção de comunidades virtuais de prática.
As empresas que já perceberam que a sua grande riqueza reside no conhecimento e em seu capital humano, devem estar atentas para oferecer e incentivar ferramentas e processos que auxiliem na criação deste tipo de rede emergente. A nós, criadores e desenvolvedores de ambientes virtuais, cabe o enorme desafio de conceber interfaces, ambientes e ferramentas cada vez mais eficazes e democráticas para esse fim.
É chegada a hora de mergulhar de cabeça na ciência do vínculo e lembrar que somos muito mais do que pés de alface na gôndola de um supermercado.
No próximo artigo vamos abordar a construção de comunidades virtuais de prática e seus desafios de gestão. Até lá.
Links de referência
- Mapa de Tópicos
Ontopia
Ferramenta muito interessante para a criação de mapa de tópicos. Tem demos e artigos muito bons.
O TAO do Mapa de Tópicos
Ainda dentro do Ontopia você encontra o TAO (Tópicos, Associações e Ocorrências) uma espécie de tese sobre Mapas de Tópicos, bem interessante.
- Sites de Relacionamento
Orkut
Link
- Wikipedia
Wikipedia em português
Saiba o que é. Participe
- Steven Johnson
Livro "Emergência" (Jorge Zahar Editor)
Weblog
Conheça o blog de um dos melhores pensadores do ciberespaço
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>> SOBRE O AUTOR: Cacau Guarnieri é Arquiteto de Informação e Estrategista Web. Desde 1998 vem atuando na concepção e estruturação de ambientes virtuais (games, sites, portais, intranets) realizando importantes projetos para empresas como: Embraer, Itaú, GE, Sadia, Microsiga, Unilever, FIA, Telefônica, Agência Estado, SESC, Folha de São Paulo, Discovery Channel, Incor, entre outras. Atualmente é Diretor de Projetos da Mentor Interativa e sócio da G&G Consultores Associados.

