A língua do P
Pecopemupenipedapedes pevirpetupeais. Não faz muito tempo em que falar em comunidades virtuais era como falar a língua do P, o ouvinte, com muito esforço, tentaria resgatar o sentido das palavras em meio aos ruídos e intercalações de “Ps” maiúsculos: Prioridade, Praticidade, Participação, Processo, Potencialidade, Pragmatismo - seccionando a frase em interrogações.
Não só “Ps” como também “Rs”, “Ts” e “Cs”: Resultado, Tangibilidade e Cultura – quebrando a visão do que poderia ser a utilização das comunidades virtuais no mundo corporativo em vários pedaços aparentemente inteligíveis. Como na frase inicial deste artigo.
Hoje as coisas estão diferentes? Nem tanto. Porém, podemos assistir ao início de um momento importante no processo da revolução digital que ainda engatinha: a popularização das funcionalidades de construção de redes e a volta do usuário como “autor” do ciberespaço. Este momento, natural em um processo de quebra de paradigmas, conta com um conceito e até uma bolha: a web 2.0.
Não pretendo falar sobre ela neste artigo, mas não poderia deixar de citá-la para explicar que neste momento o seu chefe, seu colega ou seu subordinado está escrevendo um post no blog de alguém, olhando seus scraps no Orkut e quem sabe dando uma voltinha no Second Life. Corrijo: isto só será verdade se você estiver lendo este artigo após o horário comercial, posto que a maioria das empresas não permite este tipo de acesso dentro do ambiente de trabalho.
Não vamos discutir o mérito desta proibição. Não importa. O importante é sabermos que a colaboração em rede e a participação em comunidades virtuais, complexas ou menos complexas, vêm se popularizando e tornando-se parte da “cultura digital” do brasileiro. Uma cultura ainda em formação e em constante transformação. O seu funcionário e - me desculpe a ousadia – você mesmo, fazem parte desta cultura – porém vivenciam-na fora dos domínios corporativos.
A convivência, cada vez mais entranhada em nossas vidas, com o mundo digital e a libertação crescente deste mundo da gaiola dos browsers e PCs - o que acarretará o aprofundamento cotidiano com o ciberespaço – torna a implantação e o fomento de comunidades virtuais algo mais palpável e natural – mas ainda não para as empresas.
E o que falta para que as empresas assumam e incentivem a adoção e utilização de comunidades virtuais? Desmistificação.
Nossa cidade é uma comunidade, assim como nosso bairro, nosso prédio, a turma do futebol ou o pessoal que se reúne para debater cinema ali no bar da esquina. Não é diferente para uma empresa. Ela é uma comunidade, formada por outras comunidades – que surgem de forma espontânea, desaparecem, ou duram anos a fio, à margem da empresa, mas ao mesmo tempo em seu cerne, posto que é formada por quem forma qualquer coisa inteligente: gente.
As empresas – salvo algumas exceções – desperdiçam toda esta capacitação gratuita realizada por seus colaboradores na web de consumo e não oferecem instrumentos e estratégias para que eles possam construir rede e utilizar o meio digital para virtualizar as suas relações de prática profissional. A empresa deixa que insights e trocas preciosas de melhores práticas comecem e acabem na sala do cafezinho ou no bate-papo após o almoço, sem agregar valor para a empresa – porque são irrecuperáveis e pouco abrangentes. O virtual apenas disponibiliza estas práticas de forma mais abrangente sem barreiras de tempo e espaço, além de criar um repositório da inteligência coletiva – que pode ser acessado, reutilizado e remodelado.
Os meios digitais de colaboração se tornam cada dia mais presentes em nossas vidas de forma natural. A oferta destes instrumentos no meio corporativo também deve ser feita desta forma e sem mistificações.
A web nasceu colaborativa, a empresa nasceu como um organismo de cooperação na prática profissional (vide as guildas florentinas). Nada mais natural que as comunidades virtuais floresçam no solo corporativo, sem alarde, sem exclamações. Apenas a preocupação de criar condições para isso através de ações diferenciadas como uma arquitetura que permita flexibilidade dos ambientes de acordo com a utilização dos usuários – o que chamamos de arquitetura da participação. A criação e disponibilização de uma estrutura de governança que torne as regras do jogo claras e que as diretrizes estratégicas e operacionais sejam postas em prática e por fim: canais claros de feedback, motivação e construção de uma reputação digital coletiva e não individual.
Participação, Governança, Coletiva. Novamente as letras, palavras, cortando algo. Talvez as letras sejam uma bela metáfora para a inteligência coletiva: só fazem sentido juntas, formando palavras, que por sua vez montam frases, parágrafos, páginas, livros.
Precisamos apenas parar de escrever na língua do P.
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>> SOBRE O AUTOR: Cacau Guarnieri é Arquiteto de Informação e roteirista de mídias digitais. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo, atuou durante 10 anos como roteirista e dramaturgo, realizando projetos de dramaturgia empresarial para várias corporações. Em 1997, passa a atuar nos meios digitais realizando roteiros e arquitetura de informação para CD-ROM e Games (alguns deles premiados internacionalmente) pela Mamute Mídia, iniciando também a construção de ambientes virtuais de fomento de comunidades.
Em 2000, assume o cargo de gerente de implantação e consultoria Web da RadiumSystems realizando concepção e arquitetura de informação para diversos ambientes virtuais: portais, intranets e extranets. Em 2004, assume o cargo de diretor de projetos da Mentor Interativa (braço web da Mentor Tecnologia) passando a atuar também na concepção de ambientes virtuais de suporte à aprendizagem mediada por tecnologia e comunidades de aprendizagem. Em 2005 atua como consultor para a empresa DDIC onde passa a ter contato com projetos de inteligência competitiva e mapeamento do capital humano através das árvores do conhecimento. Atualmente é o especialista em Arquitetura da Informação e Colaboração da Plena Consultores.

