A Fantástica Fábrica de Conteúdo
Quem não se lembra do filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, produzido em 1971 e estrelado por Gene Wilder? Resumidamente, o filme conta a história de um fabricante de chocolate que, após ser enganado por um de seus funcionários e sofrer uma queda considerável nos negócios, cria um método revolucionário de se fazer chocolate e reconquista sua posição de preferência no mercado.
O interessante deste filme, além de conter uma mensagem muito positiva para crianças, adolescentes e até mesmo adultos, é a relação de eventos que se assemelham em muito com aqueles que observamos na própria Gestão do Conhecimento. No filme, o senhor Wonka, dono da fábrica de chocolate, compartilha o seu conhecimento de como fazer o melhor chocolate do mundo com um de seus funcionários. Porém, o que ele não esperava era que o aprendiz de todos os seus segredos deixasse a fábrica para abrir uma empresa concorrente. Decidido a reverter sua situação, o Sr. Wonka reinventa a fábrica de chocolate contratando funcionários talentosos, que são envolvidos num processo de trabalho extremamente engenhoso e criativo. No devido tempo seus chocolates tornaram-se os mais consumidos em todo o planeta.
Mas e agora, como compartilhar todo este conhecimento com as futuras gerações a fim de manter a vantagem competitiva? Talvez a receita mágica seja encontrar pessoas talentosas e fazer com que elas aprendam mais rápido que as equipes das empresas de seus concorrentes.
FÁBRICA DE CONTEÚDO, O PROCESSO QUE NASCEU DE UM MÉTODO
Até pouco antes de 1992, os materiais usados para treinamento eram as tradicionais apostilas e apresentações em transparência. Nessa época surgiam novas versões de softwares para apresentações e também os potentes projetores multimídia. Eu trabalhava com prestação de serviços de comunicação para as áreas marketing e T&D. Com o uso de recursos audiovisuais cada vez mais sofisticados, tornando-se um padrão entre as empresas, não demorou muito para acontecer o inevitável: fazer com que uma apresentação pudesse ser interagida individualmente e que possuísse meios para mensuração do conhecimento do indivíduo. Estávamos falando de um treinamento multimídia com certificação. Para aquela época, uma verdadeira novidade no Brasil. Já havia visto algo em CD-ROM, e sabia que seria difícil fazer algo semelhante com os softwares que utilizávamos até então. Através de uma pesquisa minuciosa, descobri algumas ferramentas específicas para autoria de CBT (Computer Based Training), as primeiras nos EUA. Estas ferramentas possuíam um padrão em comum que ia além da tecnologia, referia-se também a técnicas instrucionais. Percebi que a forma de se tratar o conteúdo, não era muito diferente daquela que vínhamos fazendo no Brasil: analisar o perfil do público-alvo, os objetivos instrucionais, as necessidades da empresa e o mais importante, interpretar e organizar o conteúdo utilizando a comunicação mais adequada à cultura organizacional.
A experiência de originar o primeiro CBT foi muito gratificante, e compreendi que este tipo de aprendizagem não era um modismo, mas sim uma tendência. Foi neste momento que voltei toda minha atenção para o desenvolvimento de cursos multimídia e iniciei a documentação de um método que utilizávamos para desenvolver CBT baseado em 5 diretrizes básicas:
- Interpretação (entender o conteúdo e as necessidades da empresa);
- Andragogia (organizar o conteúdo instrucional voltado para o adulto);
- Multimídia (explorar e adequar os recursos multimídia ao conteúdo);
- Tecnologia (utilizar todas as tecnologias possíveis a fim de quebrar barreiras);
- Interação (estimular o envolvimento do público alvo com o conteúdo e entre si).
Este método que chamamos de peopleLearn apoiava-se nestas cinco diretrizes e na filosofia de que em cada pessoa existe uma semente do conhecimento. Isto significa dizer que todos nós temos a mesma capacidade de aprender, porém o ritmo é diferente. Não será com mais água que faremos esta semente se desenvolver mais rápido ou melhor, mas sim com o tempo e na medida certa. A criação deste método também favoreceu a consolidação de competências específicas para o desenvolvimento de conteúdos instrucionais, como será apresentado mais adiante (fig. 1).
Com o avanço da Internet, o conceito de EAD ganhou notoriedade e, rapidamente, um novo termo começou a ficar conhecido internacionalmente, chamado e-learning.
Após seis anos de trabalho e com o aparecimento de novas demandas por cursos multimídia foi necessária a adoção de um processo para a produção de conteúdos personalizados, a fim de melhorar continuamente a qualidade dos projetos. Importante ressaltar que quando menciono “conteúdos personalizados”, estou me referindo a cursos ou jogos multimídia com a finalidade de atender as empresas na capacitação ou treinamento de seus colaboradores, parceiros e clientes em necessidades específicas. Seja ela pontual ou não. Ironicamente, neste mesmo período, estávamos desenvolvendo um conteúdo específico sobre BPM (Business Process Management) para a empresa Tess celular. Foi um momento muito oportuno, a partir deste novo conhecimento adquirido, implantamos em minha empresa o processo que seria responsável por aperfeiçoar o próprio método peopleLearn. Assim nasceu o processo Fábrica de Conteúdo, uma união de metodologia, talentos e BPM. Como este processo funciona é o que será explicado a seguir.
AS TRÊS CARACTERÍSTICAS QUE TORNAM ESTE CONCEITO TÃO FANTÁSTICO
A primeira característica é o processo em si, com a participação de um time de talentos que se apóia num método de ensino/aprendizado específico para o e-learning.
A figura 1 exibe um modelo de organização de empresa que possui uma Gestão por Processos, orientada para projetos de conteúdos instrucionais. Neste modelo, o papel do gerente de projetos é controlar todas as fases do projeto e garantir que os objetivos instrucionais sejam atingidos até a finalização e entrega do conteúdo na forma de curso multimídia.
A qualidade instrucional, estética e tecnológica do curso multimídia está diretamente relacionada às competências destes três grupos de profissionais respectivamente: DI (Designer Instrucional), DM (Designer Multimídia) e EC (Engenheiro de Conteúdo).
Figura 1
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DI é o responsável por interpretar o conteúdo e organizá-lo de forma instrucional, sugerindo todas as possíveis formas de interação entre o sujeito e o objeto de aprendizagem como no modelo tradicional de Piaget (fig. 2). Vamos dizer que enquanto o DI é responsável por sonhar, o DM é aquele que concretiza este sonho explorando, criando e adequando os recursos multimídia ao conteúdo. EC é a pessoa que se dedica à concepção, melhoria e implementação de sistemas, objetos de aprendizagem, informação e equipamentos. Utiliza-se do conhecimento especializado em matemática, lógica e programação, em conjunto com análise e projeto de engenharia, para especificar, prever e avaliar os resultados obtidos por tais sistemas. Não importam quais sejam as barreiras, depois de realizado o sonho, é o EC quem irá garantir que o público-alvo o receba.
Neste processo existe uma ativa participação conjunta entre DI e DM semelhante às duplas de criação das agências de propaganda. Por isso, a criatividade é um fator indispensável. Lembro que uma das primeiras coisas que percebi ao estudar a forma de como eram feitos os conteúdos que vinham de outros paises é que havia pouco uso de elementos lúdicos associados aos objetos de aprendizagem, tornando o conteúdo muito mais racional que emocional. Na minha experiência, aprendi que em países latinos, para um conteúdo fazer sucesso entre o público-alvo, é fundamental a associação de elementos emocionais, dosando criatividade e objetividade.
Figura 2
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Modelo de aprendizado segundo Jean Piaget (1896 - 1980), pedagogo suíço conhecido principalmente por organizar o desenvolvimento cognitivo em uma série de estágios. A teoria de Piaget explica que quando o objeto de aprendizagem (material de estudo) está além do conhecimento do sujeito, este, volta-se pra si, soma estas informações à outras já adquiridas, utilizando suas diferentes formas de inteligência, constrói um novo conhecimento e volta-se novamente para o objeto. Este processo se repete até que o sujeito certifique-se que compreendeu o objeto
No caso de outsourcing, além de uma equipe com múltiplas competências é importante que exista um fluxo assertivo das atividades internas e da participação do cliente durante todas as fases do projeto. Neste aspecto, o uso de workflow e de um canal via Internet para acesso exclusivo pelo cliente, agilizam consideravelmente a execução do projeto. Afinal, se é conteúdo para EAD que está sendo desenvolvido, porque o acompanhamento e a validação não podem ser à distância?
Com o tempo, há o aperfeiçoamento do processo e do relacionamento entre o cliente e a equipe de produção. A impressão que se tem, é que a distância realmente não existe e que a equipe parece estar tão próxima do cliente como se estivesse numa sala ao lado.
Se o capital intelectual de uma empresa pode ser comparado a um diamante bruto, o trabalho de uma equipe multidisciplinar, como a que foi apresentada, é justamente o de lapidá-lo. Logo, se as pessoas que formam esta equipe não forem realmente competentes, o diamante certamente não encantará o público-alvo. E diamantes foram feitos para brilhar, assim como cursos multimídia para encantar e envolver.
A segunda característica da Fábrica de Conteúdo diz respeito a um procedimento chamado de DAC (Documentação e Análise de Conhecimento), desenvolvido especialmente para coletar e analisar informações que formam um determinado conhecimento que a empresa possui, seja este tácito ou explícito.
O objetivo do DAC é coletar o máximo de informações sobre o conteúdo, estejam estas em forma de conhecimento tácito ou explícito. Sua principal vantagem, além da praticidade e objetividade na reunião de documentos, é a atualização destes documentos existentes pelo conhecimento atual do profissional especialista, seja ele um funcionário da empresa ou colaborador contratado (fig. 3). Durante o DAC, um quinto documento é gerado e serve de base para sua transformação em curso multimídia.
Figura 3
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A figura 3 mostra uma reunião de DAC com 4 tipos de diferentes conhecimentos sendo apresentados pelo EP (especialista) à equipe de produção do conteúdo instrucional.
As vantagens do DAC no processo da Fábrica de Conteúdo são:
- Documentação rápida e objetiva do conhecimento, pois o EP seleciona previamente as informações pertinentes às necessidades da empresa, apresentadas durante uma reunião preliminar;
- Atualização das informações coletadas, gerando assim um novo documento;
- Redução da quantidade de dúvidas, e maior assertividade na interpretação do conhecimento pelo DI, pois este possui toda a informação documentada;
A tabela abaixo mostra como o procedimento DAC agiliza o processo da Fábrica de Conteúdo.
|
Tarefas do DI |
Antes |
Com o DAC |
|
Coleta de informações |
4h |
2h |
|
Dúvidas sobre as informações |
2h |
- |
|
Organização do conteúdo |
3h |
2h |
|
Elaboração e Montagem do curso |
24h |
12h |
|
Acertos |
6h |
4h |
|
Total de horas investidas |
39h |
18h |
* Este exemplo se baseia numa aula multimídia com aproximadamente 1 hora de duração.
A terceira característica da Fábrica de Conteúdo é a linha de produção dedicada ou semidedicada para o atendimento de uma grande demanda por conteúdos, com o objetivo de reduzir o custo de desenvolvimento sem comprometer a qualidade. Isso fará com que o planejamento e a logística de entrega dos cursos fique mais ágil.
Em qualquer empresa, o processo interno para a aprovação de um contrato de um curso multimídia ou um contrato para vários cursos junto a um fornecedor, consome o mesmo tempo. Logo, é uma grande vantagem para a empresa assinar um contrato de outsourcing para a produção de vários cursos com um mesmo fornecedor uma única vez ao ano, do que vários contratos no mesmo período. Evidentemente que se faz necessária a tradicional política de escolha e análise dos fornecedores, neste caso, de forma ainda mais criteriosa. No entanto, será menos dispendioso para a empresa lidar com um só fornecedor, do que com vários. Além disso, a presença de um relacionamento de parceria e transparência faz com que os dois lados ganhem sempre.
O contrato de fábrica estipula as horas corridas de cursos multimídia que a empresa/cliente tem a receber e a quantidade de recursos multimídia que serão utilizados nesses cursos. A qualidade dos cursos é garantida através de uma tabela de controle com definição das horas e recursos utilizados, homologados pelas duas empresas durante todo o processo da fábrica, até o final do contrato.
Mas a maior vantagem de uma fábrica dedicada é, sem dúvida, a possibilidade de se alcançar uma enorme redução no custo de desenvolvimento.
A figura 4 mostra o planejamento de 11 horas de treinamento multimídia, divididos em 12 cursos com tempos diferentes. A cada três meses são realizados ciclos de atividade com o objetivo de sistematizar a produção dos recursos multimídia. Por exemplo, entre janeiro e março serão desenvolvidos quatro cursos multimídia. Todos estes receberão locução, portanto será necessário o aluguel de três diárias de um estúdio de gravação, totalizando R$ 1.470,00 (média de mercado). Se os cursos fossem desenvolvidos pontualmente, sem a fábrica de conteúdo, seriam necessárias quatro diárias (uma para cada curso), o que geraria um custo de R$ 1.960,00. Neste caso, a fábrica gerou uma economia de 25%.
A empresa fornecedora consegue estes descontos porque pratica o mesmo tipo de contrato com seus parceiros fornecedores. Estes descontos variam de uma empresa para outra. Porém, se considerarmos um desconto médio de 30% sobre o valor de R$ 165.000,00 que seria o montante para a produção de 11 cursos de uma hora (fig. 4), a Fábrica então custaria R$ 115.500,00 e ainda seria parcelada em 12 prestações de R$ 9.625,00. Uma economia de R$ 49.500,00.
Figura 4
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Eu não poderia deixar de fazer mais uma comparação da Fábrica de Conteúdo com o mundo do cinema. Quem assistiu a trilogia “Senhor dos Anéis” ficou impressionado com a qualidade dos três filmes. Em todos os aspectos: roteiro, figurino, locação, fotografia, computação gráfica, interpretação, etc. E acreditem, eles fizeram os três filmes pelo custo de dois, sendo que sobrou material que daria para fazer um quarto filme. Mas qual foi o segredo deste sucesso, então? Não houve segredo, os produtores simplesmente fizeram contratos preferenciais com todos os fornecedores.
Assim como na indústria cinematográfica, o processo da Fábrica de Conteúdo é muito semelhante à produção de um filme. E neste contexto, a criatividade é o fator fundamental para que as pessoas sintam-se encantadas.
OS BENEFÍCIOS DA FÁBRICA DE CONTEÚDO
Classifico em cinco os principais benefícios da Fábrica de Conteúdo
- Qualidade instrucional
devido à metodologia e a uma equipe com competências multidisciplinares; - Redução de custo
graças a um contrato de preferência para uma linha de produção dedicada ou semidedicada; - Controle e acompanhamento
em função de um processo específico; - Agilidade
no atendimento, produção e entrega de conteúdos; - Flexibilidade total
Parceria entre as empresas favorece ganhos extras no uso de recursos.
CONCLUSÃO
O conceito Fábrica de Conteúdo está se tornando cada vez mais popular entre as empresas, pois favorece um desenvolvimento sustentável entre cliente e fornecedor. Para o cliente que contrata a fábrica, além de todos os benefícios citados, haverá um fornecedor que conhecerá cada vez mais profundamente o conhecimento, a cultura e as pessoas que formam a empresa. Para o fornecedor haverá a oportunidade de crescimento empresarial e aprimoramento contínuo das equipes multidisciplinares garantido através de uma receita recorrente.
Agora, está nas mãos dos gestores de T&D decidir por qual parceiro fornecedor buscar no mercado. Felizmente, os gestores reconhecem a importância das equipes multidisciplinares no desenvolvimento de cursos multimídia e sabem que, embora inicialmente a fábrica signifique um alto valor agregado, este investimento passa a ser diluído à medida que mais pessoas vão aderindo ao aprendizado através do e-learning
Figura 5
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Recentemente o filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” foi reproduzido em 2004 e estréia este mês nos cinemas. Espero que você tenha a oportunidade de assistir ao filme com duas visões, a de um adulto e a de uma criança. E lembre-se do ditado de que a vida imita a arte.
Clique aqui para ver o trailer do filme:
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>> SOBRE O AUTOR: Marcelo Smith é consultor, fundador e CEO da Smith Gestão do Conhecimento. É autor do peopleLearn® e do conceito "Fábrica de Conteúdo". A partir de 1995, especializou-se no desenvolvimento de CBT (Computer Based Training) tendo realizado mais de 50 cursos técnicos. Desde 2001 produz conteúdos customizados para cursos e jogos. Ao longo dos últimos 7 anos, coordenou o desenvolvimento de mais de 500 projetos para grandes organizações.

