Portais Corporativos: o futuro é hoje
Nos dias 29 e 30 de março, tivemos mais uma edição – a quinta – da Conferência IBC sobre Portais Corporativos, evento que já se consolidou como referência no segmento. Conforme prometido, quero aproveitar este espaço para dividir com você a minha visão do que foi apresentado por lá.
EM PERSPECTIVA
O fato de atuar Presidente de Mesa pela segunda edição consecutiva (desta vez dividindo os trabalhos com o colega Fábio Nogueira, da Execonsult), tendo também participado de uma edição anterior, me oferece uma posição, de certa forma, privilegiada. Some-se a vivência de liderar a WI Intranet por quase três anos e teremos, no mínimo, uma boa perspectiva para abordar o assunto, concorda?
Uma das primeiras coisas importantes que se nota é a evolução do segmento de portais. Dois anos atrás, discutíamos se eles eram viáveis. Hoje, Odebrecht, Ambev e Politeno nos mostram que sim, não há mais controvérsia.
A visão de que intranets e portais são instrumentos “apenas” de comunicação também predominava. Hoje, a comunicação bidirecional deu as mãos à colaboração e ganhou um status estratégico (para o trabalho remoto de equipes, por exemplo).
Por sinal, na edição anterior da Conferência, que já tinha apresentado avanços, palavras e expressões como “estratégia” e “alinhamento ao negócio” começaram a pontuar muitas das apresentações. Agora, juntaram-se a elas preocupações com “implantação”, “adoção” e “inovação” (mais um sinal de que já falamos de algo prático e factível – e não mais de um sonho distante).
Claro que a heterogeneidade permanece: há intranets que ainda estão na primeira geração convivendo, neste mesmo início de século, com portais corporativos complexos. Mas não é assim em todos os setores?
Portanto, embora as discussões conceituais sejam sempre importantes, é fato que passamos para um momento em que "fazer acontecer" é o que mais interessa. Ninguém mais discute se ter um portal corporativo é bom – quem não tem, que se apresse em construí-lo, se não quiser ficar irremediavelmente para traz. E ninguém mais acha que isso se consegue da noite para o dia ou via instalação de um software poderoso: tecnologia é e sempre será importante, mas os resultados só aparecem quando a ela se acrescenta uma visão sistêmica, sócio-técnica.
Isso ficará claro na avaliação dos cases, mais abaixo. Por sinal, correndo o sério risco de ser injusto com alguns dos colegas que palestraram no evento, selecionei os três exemplos citados anteriormente – Odebrecht, Ambev e Politeno – para oferecer uma análise mais detalhada. Certamente, esta é uma opção muito mais pautada pela necessidade de reduzir o artigo e gerar foco do que por desmerecimento de qualquer dos demais trabalhos apresentados, que mantiveram a ótima qualidade do evento.
PORTAL POLITENO: ALINHAMENTO EM TODOS OS NÍVEIS
O Portal Politeno, apresentado por Vera Pustilnik, demonstrou estar baseado em quatro itens de suma importância: alinhamento estratégico ao negócio, alinhamento cultural, utilidade prática e criação de uma camada de interface muito agradável.
Não por acaso, tanto a Vera quanto os amigos Eduardo Lapa e Sérgio Bolonha (da Informal Informática, responsável pelo projeto) participam e colaboram na lista de discussão WI Intranet desde sempre, enriquecendo os debates – estão todos de parabéns pelo belo trabalho realizado.
Atuando em um segmento em que muitos produtos finais são commodity (plástico), a Politeno precisa investir em conhecimento e qualidade como diferenciais competitivos.
Por sinal, a cultura da qualidade, já difundida na empresa, parece ter facilitado muito o trabalho de construção e compreensão do que um portal corporativo pode agregar. Longe de desmerecer o trabalho realizado, isso revela a perspicácia e o alinhamento estratégico dos responsáveis pelo projeto, que montaram toda a navegação e a taxonomia baseadas no PNQ (Plano Nacional da Qualidade), aproveitando o jargão já utilizado por todos para gerar empatia e estimular o uso.
Outro destaque é a visão da tecnologia como meio: em vários momentos, ficou claro que, graças à integração e ao alinhamento com o negócio, pouco importava qual o software ou funcionalidade estava por trás de uma interface. A camada “transparente” permitiu trazer para o portal os aplicativos, tornando mais perto da realidade a idéia da porta única de entrada e trazendo alguns conceitos de gestão do conhecimento para a ponta dos dedos dos usuários.
Por fim, vale destacar que a preocupação com as pessoas e com a cultura parece ter sido um dos pontos altos do projeto. A sensibilização, com muita comunicação e endomarketing, foi só a ponta do iceberg, já que até mesmo a intranet anterior foi mantida no ar em um período de transição, indicando como era feito antes e como seria o novo processo, abrindo a possibilidade de solicitação de um treinamento formal. Maior cuidado e consideração, impossível.
O Portal Politeno tem tudo para dar muito certo. Por sinal, o único “porém” é justamente o fato de que ele está no ar há muito pouco tempo, entrando na fase de utilização diária a partir de agora. Certamente, nas próximas edições da Conferência, Vera estará voltando para nos contar as venturas e desventuras desta que é a real prova de fogo.
ODEBRECHT: PRINCÍPIOS, VALORES, SUOR E COMPETÊNCIA
Se o que falta ao projeto da Politeno é tempo de estrada, o mesmo não se pode dizer do portal corporativo da Odebrecht. Embora a intranet date de dezembro de 1996, os princípios em que tudo se baseia são bem mais antigos, sem serem velhos (muito pelo contrário: neles estão englobados muitos conceitos que só mais tarde viriam a compor o decálogo da gestão do conhecimento).
Para se ter uma idéia, um desses princípios fundamentais da companhia é o de que o compartilhamento é a única prática capaz de gerar diferencial sustentável.
A Odebrecht fez valer, no dia-a-dia, muitos dos conceitos que defendemos há tempos: visão evolutiva e sistêmica, alinhamento estratégico, preocupação com colaboração, tudo unido em uma visão integrada e integradora, complexa, mas eficaz. A abordagem referente ao portal é totalmente sócio-técnica, tendo grande preocupação com a interação das pessoas e sistemas/processos, sem esquecer da estratégia empresarial.
“Transformar ilhas de competência em um arquipélago de excelência” é a obsessão do programa, que em muito ultrapassa os limites do portal corporativo – ainda que ele seja um elemento central. Foi o que nos passou Mauro Velloso Rehm, CIO da construtora, que fez uma apresentação tão brilhante quanto apaixonada.
Por sinal, em meio a tantos problemas para “envolver os colaboradores” e “transformar a cultura”, que assolam boa parte dos projetos de portais, o depoimento da Odebrecht deixa muito claro que a superação só acontece quando às metas somam-se princípios e paixão, construindo uma filosofia de vida e de trabalho, redundando mais naturalmente em comprometimento e colaboração.
Mauro mostrou que a gestão do conhecimento na Odebrecht baseia-se na “pedagogia da presença”, onde há uma crença na educação pelo e para o trabalho, formando as duas grandes vertentes norteadoras do programa. Daí nascem iniciativas interessantíssimas (como os “Destaques” em várias categorias, incentivando o registro e a troca de conhecimento), que foram evoluindo com o tempo, em um processo de inovação contínua. Todas elas apresentam um foco muito claro nas pessoas, no estímulo à colaboração.
Um aspecto fundamental é notar que, embora otimização de processos e redução de custos sejam preocupações memoráveis, o programa da Odebrecht está mais voltado para construir “a empresa de amanhã”, dando condições para que ela possa continuar a ser líder também no novo cenário de negócios, onde a ação grupal e a complexidade passam a ser uma exigência. Isso, infelizmente, ainda não é muito comum: muitas empresas pensam no portal apenas pelo viés de custos e não como uma infra-estrutura para inovação e reestruturação organizacional. Na Odebrecht, o portal corporativo atua não só para garantir o que já foi construído, mas principalmente para viabilizar e transformar a empresa diante dos novos desafios.
AMBEV: PROCESSOS E PRAGMATISMO
Há quem acredite que o amanhã começa a se construir hoje – uma visão corretíssima, sem dúvida, principalmente quando está alinhada aos valores e à cultura da empresa. Este parece ser o caso da Ambev na construção do seu integrado portal corporativo, onde a abordagem por processos é a tônica. Segundo eles, é a integração dos processos que gera valor.
A partir da estruturação de uma matriz de oportunidades, foi construído um dos primeiros portais integrados do Brasil, já em 2001, sendo, portanto, um exemplo importante a considerar. Atualmente, o foco é em trazer para dentro o CRM e avançar na integração mundial, agora que a empresa uniu-se aos holandeses, formando o grupo multinacional Imbev.
O portal é suportado por uma parafernália tecnológica de peso, unificando inter, intra e extranet. Também não se limita aos desktops: palms e totens estão dentro da grande rede da companhia. O single sign on a partir do login de rede cria uma personalização no acesso, além de definir níveis de segurança.
Na mesma linha de racionalidade absoluta, Eloi Prado de Assis, Gerente de Projetos de Sistemas que apresentou o case, lembrou que nada é implantado sem passar pelo crivo de uma prova de ROI. As defesas são sempre baseadas em construção de cenários, análise de risco, redução de custos/pessoas, mais agilidade ou menor cycle time. Mas não adianta dizer apenas que vai haver ganho de tempo: Eloi lembrou que um executivo sugeriu, com ironia, que o investimento no portal fosse direcionado para novos elevadores, nesse caso...
Mais uma vez, fica claro que o alinhamento ao negócio (suas metas, cultura e visão) é fundamental para que o portal seja alvo dos investimentos necessários para tornar as promessas da literatura em realidade eficaz.
PORTAIS REQUEREM ALMA E RESULTADOS
Ainda que os três exemplos acima sejam bem diferentes entre si, guardam algumas similaridades importantes:
-
Não é acaso o fato do sucesso dos portais aparecer muito mais em empresas que construíram sua trajetória em cima de princípios norteadores muito claros (qualidade, para a Politeno; pessoas, para a Odebrecht; processos, para a Ambev) – mérito para os responsáveis pelos projetos, que tiveram sensibilidade para interpretar e utilizar os princípios a favor da construção de uma cultura digital igualmente forte;
-
Da mesma forma, todos partem de uma visão sistêmica, alinhada aos objetivos de negócio, considerando não só a tecnologia, mas também a sociologia;
-
Nenhum foi construído da noite para o dia: o viés evolutivo é um traço marcante;
-
Por outro lado, nenhum atingiu seu grau de excelência por “geração espontânea” – ao contrário, foram encarados como projetos complexos, tratados com profissionalismo, baseados em planejamento sólido e clara visão de futuro.
Essas são lições importantíssimas para qualquer iniciativa de portal corporativo. Lições que, construídas e validadas na prática, nos deixam animados, certos de que ainda estamos vivendo a infância deste mercado, mas sabendo que o amadurecimento é rápido e tangível.
O grande desafio agora é, cada vez mais, fazer acontecer. Algo que não só é possível, como comprovam os cases, mas desejável e, porque não, imprescindível para as empresas que quiserem estar preparadas para o novo ambiente de negócios que se consolida a cada dia.
============================
CONVITE
Por falar em “fazer acontecer”, gostaria de convidá-lo para a palestra “Da intranet ao portal corporativo – passos fundamentais”, que estarei ministrando na próxima terça (12/4), dentro do “Ciclo de Palestras do Intranet Portal”. Nela apresentarei, dentre outras coisas, as macro-etapas de uma metodologia capaz de ajudar no planejamento e na implantação de portais.
Vale lembrar que as vagas são limitadas e que os preços são convidativos, com desconto de 50% para os cadastrados no site (que pagam apenas R$ 40,00).
Faça já sua inscrição e garanta seu lugar! Nos vemos lá?
=============
>>> SOBRE O AUTOR: Ricardo Saldanha é especialista em intranets e portais corporativos, Consultor e Diretor Executivo da Plena Consultores, profissional de marketing e Diretor Adjunto de Tecnologia da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC). Assina a primeira coluna brasileira sobre intranets, no site Webinsider, e mantém o blog “Intra”. Fundou o site Intranet Portal e é moderador e fundador da lista internacional de discussão WI Intranet, o mais importante fórum sobre o tema em língua portuguesa, com quase três anos de vida, contando com a participação de mais de 600 pessoas.

