Os quatro eixos estruturais de um portal corporativo
Todo veículo tem rodas, volante, motor e transmissão, não? Mas de pouco adianta eu ter uma Ferrari se preciso carregar toneladas de carga numa estrada esburacada (onde o melhor seria um belo caminhão).
Essa coluna tem primado por falar muito mais da escolha entre Ferrari e Caminhão (foco estratégico) do que dos elementos comuns a todos estes veículos chamados “portais corporativos” (foco estrutural). Logo, nada mais justo do que equilibrar um pouco a abordagem, não? Afinal, também não adianta nada uma bela estratégia se falhamos na realização da mesma.
Falaremos, portanto, da roda, do volante e afins – do que é estrutural. Do que todo portal corporativo tem que ter. Do que é básico (ainda que esteja longe de ser tudo).
Não, não mudamos de idéia: continuaremos batendo na tecla de que “não há fórmula de bolo” quando o assunto é portal corporativo. Mas se você foi além do conceitual e ousou “fazer acontecer”, partindo para definir um projeto, sabe que um dos maiores desafios é definir bem as bases deste trabalho – o famoso “por onde eu começo?”.
Alicerces
Responda rápido: portal corporativo é uma casa ou um prédio? Se imaginarmos que cada andar representa o apoio a uma determinada atividade, processo ou área de negócio, certamente ele vai estar mais para um arranha-céu, mas... de quantos andares estamos falando?
Só há uma resposta possível: “depende”. Do quê? Do negócio, das prioridades da empresa, da verba para investir, do grau de cultura digital, da análise de custo-benefício....
Mas todo prédio, por menor (ou maior) que seja, tem fundações, portaria e uns três andares, não? Com os portais corporativos acontece a mesma coisa: há pelo menos quatro alicerces a serem investigados em um projeto de portal –que passaremos a chamar de eixos estruturais. São eles:
• Ferramenta
• Governança do Portal
• Governança e Gestão de Conteúdo
• Arquitetura da Informação
“E a segurança? E a usabilidade?” – alguém deve estar perguntando... Hora, claro que há uma série de outros itens fundamentais, mas numa visão macro (e dentro dos objetivos deste artigo, que não quer ser uma tese de mestrado...), entender estes quatro já é um grande adianto, acredite.
Vamos, então, explorar um pouco mais cada um deles? Neste primeiro artigo, falaremos das ferramentas (aguardem os próximos, onde focarei nos itens seguintes).
Ferramenta = fundações
O primeiro eixo estrutural é o mais óbvio. Adivinhou? Isso mesmo: tecnologia. Portal não é só TI – mas é também TI.
Os puristas já devem estar se perguntando porque eu falei em “ferramenta”... Não seria possível construir um portal sem uma dessas, oferecidas no mercado por players como Microsoft, Sap, Oracle, IBM e afins? A resposta é sim – e não.
Há inúmeros casos de portais construídos “na unha”, pela equipe interna. Mas é inegável que o crescente amadurecimento do mercado de portais corporativos veio acompanhado por uma enorme evolução das ferramentas, incorporando funcionalidades e versatilidade que acabam fazendo a balança pesar a favor delas.
Assim, generalizando, um planejamento de portal deve considerar a escolha da ferramenta como um elemento muito importante. Entretanto, muita gente boa ainda pensa que, se ela é a grande base, deve ser escolhida logo de início, o que é um grande erro...
Seria o mesmo que imaginar um engenheiro definindo as fundações sem ter a visão do prédio todo – seu tamanho, distribuição, o terreno onde será erguido... e sem ter também conhecimento do objetivo da construção (Será um prédio de escritórios para profissionais liberais? Ou para grandes empresas? Será ele um prédio residencial?).
Isso significa que a escolha da ferramenta tem que passar não só por uma avaliação técnica, mas também sócio (eu de novo com esse papo: portais são soluções sócio-técnicas...). A tecnologia é meio e precisa ser definida e moldada não só a partir de requisitos do ambiente tecnológico da empresa, mas também – e principalmente – pelos objetivos estratégicos de negócio. Ao menos esse é o cenário ideal.
No mundo real, entretanto, é comum vermos que a tecnologia já está dada, seja porque a empresa errou e comprou primeiro, seja porque o contrato com um grande player já dá direito ao uso a custos convidativos.
Seja como for, do ponto de vista estrutural, pouca coisa muda: a preocupação com a tecnologia que suportará o portal continua, passando o foco agora para identificar as limitações e as potencialidades do que temos dentro de casa.
Logo, se você está pensando em portal corporativo, pense também no seu lado hard, aquele onde ele acontece de fato. E pense também nos outros aspectos, que trataremos nos artigos seguintes: governança, gestão de conteúdo e arquitetura da informação. E aqui já surge uma pista (ou seria uma dica?): quem entende de TI entende de conteúdo? Quase sempre, não... é por isso que mais e mais projetos de portal nascem de uma equipe multidisciplinar, congregando representantes de várias áreas da empresa – equipe essa que, sem saber, já é o embrião da governança futura...
Mas isso já é assunto do próximo texto... aguardo vocês! :o)
==================
SOBRE O AUTOR: Ricardo Saldanha é especialista em intranets e portais corporativos, profissional de marketing e Diretor do Polo-SP da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC). Assina a primeira coluna brasileira sobre intranets, no site Webinsider, e mantém o blog “Intra”. Fundou o site Intranet Portal e é moderador e fundador da lista internacional de discussão WI Intranet. É Consultor e Diretor Executivo da Plena Consultores.

