A questão cultural em projetos distribuídos
Cultura é algo bem interessante. Estamos acostumados a dizer que num país continental como o Brasil, é possível encontrarmos uma diversidade cultural grande – talvez um gosto por certos tipos de música, ou tipos de comida. Mas qual o ponto onde estas variações culturais começam a fazer diferença para a gestão de projetos distribuídos?
Não há dúvida de que quando existem projetos que estão distribuídos entre vários países – ou seja, com participantes que trabalham em seu próprio país em um projeto virtual – esta diferença é muito importante. Eu vou defender, entretanto, que esta importância vai muito além de diferenças entre países. Inicialmente vou apresentar a maneira tradicional de como a cultura tem sido analisada e usada como um fator aliado em relações internacionais e, portanto, um aspecto crítico em projetos distribuídos. Em uma segunda etapa, vou apresentar um argumento mais geral que se aplica às diferenças culturais, que podem existir dentro de um mesmo país, até mesmo em grupos que moram em pequenas distâncias entre si.
Não se pode negar que isso faz diferença no âmbito internacional... Estudiosos, em particular, têm tentado entender cultura em suas partes básicas, para então explicar o tipo de comportamentos que podem se originar. Existem cinco dimensões básicas de cultura (Hofstede, 1983): o contínuo entre individualismo e coletivismo. A cultura individualista sugere que pessoas tendem a colocar seu próprio interesse acima dos do grupo, enquanto que em países mais coletivistas, como os da Ásia, tendem a fazer o oposto.
Uma segunda dimensão é como as pessoas tendem a evitar, ou não, a incerteza na vida. Certos grupos são extremamente tolerantes à presença de incerteza e, portanto, bastante confortáveis com posições ambíguas, enquanto que outros grupos preferem ter definições muito claras do que é necessário fazer.
Para algumas pessoas, a distância hierárquica de poder é algo muito natural, enquanto que outros costumam ver todas as pessoas como iguais. Em países onde o senso de igualdade é muito forte – Israel por exemplo – é comum esperar discussões onde todos participem do mesmo modo, enquanto na Ásia um subordinado dificilmente iria contra a opinião de seu chefe.
Outra dimensão cultural é como o tempo afeta certas decisões. Em países onde o horizonte temporal é bastante curto, decisões de curto prazo são mais importantes – por exemplo, resultados financeiros trimestrais – em outros países decisões conscientes de lucrar apenas a longo prazo permitem estratégias, que a curto prazo, podem acarretar perdas consideráveis.
Finalmente, outra dimensão muito aceita é masculinidade/feminilidade. Em um extremo, a cultura é fortemente competitiva e baseada em sucesso, enquanto que a cultura mais feminina é voltada à qualidade de vida.
O entendimento e reconhecimento da existência destas diferenças culturais numa esfera internacional pode ajudar, e muito, o trabalho entre localidades remotas. Tipicamente, alguém prepara um perfil cultural das duas (ou mais) localidades em questão e os tipos de comportamentos e expectativas que são mais comuns nestes tipos de culturas. É então possível evitar “faux pas” em comunicações ou requerimentos de trabalho. A dificuldade desta solução é que muitas vezes fica difícil preparar este perfil cultural.
Eu proponho algo um pouco diferente. Em vez de pensar em cultura apenas como estas cinco dimensões mencionadas acima, que são definitivamente diferentes na esfera internacional, mas não necessariamente dentro de um mesmo país – já que foram criadas desta maneira – eu prefiro pensar em cultura como um conjunto de expectativas.
Desta forma, fica um pouco mais fácil de entender o que é cultura. No Brasil, por exemplo, existe, muito provavelmente, a expectativa de que chimarrão vai fazer parte do cotidiano de um gaúcho. Quando pensamos desta maneira, fica óbvio que expectativas podem variar em pequenas distâncias – alguém que mora na praia espera que isto seja parte do seu dia.
Esta perspectiva muda a face da questão cultural. Em vez de nos preocuparmos com o desenvolvimento de perfis culturais, basta analisarmos o conjunto de expectativas destes grupos diferentes. Uma vez analisado e entendido a fundo, fica muito mais fácil ter a certeza de que não se está deixando o outro grupo “na mão”.
Como resultado, em vez de termos de preparar um documento cada vez que estamos interagindo com um grupo cultural diferente, vale a pena abstrair o problema e centralizar nosso interesse em aprender como explicitar nossas expectativas e também entender as expectativas do nossos parceiros de projeto. E, partindo daí, focar nosso esforço em usar este entendimento para evitar o desânimo dos parceiros e conseqüente quebra da confiança existente. Esta quebra tende a criar um espiral descendente de performance.
E, naturalmente, o papel de intranets nesta externalização de expectativas é crucial, tanto como veículo, como criador de um histórico que torna a aculturação de novos empregados mais rápida e eficiente. Modos de implementação variam, entretanto, a filosofia básica continua.
No meu próximo artigo, vou abordar a questão de como gerenciar a confiança, como aumentá-la e recuperá-la quando foi perdida.
Até lá, fique à vontade para falar comigo através do e-mail evaristo@ameritech.net
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>> SOBRE O AUTOR: Roberto Evaristo é consultor, professor de Sistemas de Informações Gerenciais no Information and Decision Sciences Department da Universidade de Illinois, Chicago. Formou-se em Engenharia Civil na UFRGS, obteve seu mestrado na COPPE-UFRJ e seu Ph.D. em Business Administration na Universidade de Minnesota, EUA. É conhecido por seu trabalho na área de Gestão de Projetos Distribuídos, com consultorias e pesquisas feitas na Europa, Japão, Estados Unidos e Brasil. É autor de mais de 50 artigos científicos e práticos publicados em revistas como o “International Journal of Project Management” e “Communications of the ACM”, bem como em conferências. Roberto também coordena uma conferência internacional sobre Gestão de Conhecimento Distribuído, um dos tópicos mais relevantes para Projetos Distribuídos. Informações adicionais podem ser encontradas em seu website pessoal.

