Do camelo à nave espacial
Antes de viajarmos para o Congresso da ASIS&T, foco deste primeiro artigo, gostaria de explicar a você qual será a linha desta coluna e também quais as circunstâncias que nos fizeram defini-la com o título de "Tendências Internacionais" - uma forma de nos conhecermos melhor e combinarmos como será a nossa viagem pelos vários artigos que se seguirão.
"LUCAS MENDES DAS INTRANETS"
Minha missão aqui será a de atuar como um "correspondente internacional", tendo como meta apresentar e debater com você as tendências internacionais de gestão da informação e do conhecimento no âmbito das intranets e portais corporativos.
Essa desafiadora missão de ser um "Lucas Mendes das intranets" é fruto de uma idéia do Editor, Ricardo Saldanha, que me fez o convite ao saber da minha vinda ao Canadá, onde estou desenvolvendo minha pesquisa de doutorado na Faculty of Information Studies, da Universidade de Toronto. Ficarei por aqui durante um ano e pretendo trazer muitas novidades nessa "Toronto Connection".
O EVENTO
Sem mais delongas, vamos direto ao nosso assunto de estréia: as visões e reflexões surgidas durante o último congresso da ASIS&T (American Society for Information Science and Technology), realizado em Providence-EUA, de 12 a 17 de novembro de 2004.
Fundada em 1937 e possuindo atualmente 4 mil membros, a ASIS&T (www.asis.org) é considerada um dos principais associações mundiais de profissionais da informação, sendo assim um fórum privilegiado de debate da comunidade científica do campo da Ciência da Informação. A ASIS&T também é responsável pela edição de livros e periódicos da área, tais como o JASIS e o ARIST.
GESTÃO DE CONTEÚDO, NASA E BUSH
Entre as mais de 200 palestras do evento, um dos destaques foi a apresentação da arquiteta de informações da NASA sobre a gestão de conteúdo em sua intranet.
A NASA possui um acervo digital gigantesco, que precisa ser indexado para que possa ser acessado pelos seus profissionais e pesquisadores. Para evitar o caos informacional, eles têm utilizado uma técnica interessante: a pré-indexação.
Baseando-se em uma taxonomia própria para a área espacial e em templates de documentos, a NASA especifica, antes do início do projeto, quais serão os tipos de documentos, as palavras-chave e as categorias esperadas para o conteúdo a ser gerado no decorrer do mesmo. Na prática, isso equivale a uma indexação just-in-time, ou index-in-time, se preferirem.
Segundo a especialista da NASA, evita-se assim uma sobrecarga de organização de informação ao final de cada projeto. No entanto, ela destacou que, quando eles chegam ao fim, ocorrem reuniões para identificar a necessidade de se criarem novas palavras-chave, novos templates ou até mesmo de alterar a taxonomia previamente definida (confira em http://nasataxonomy.jpl.nasa.gov )
Um fato recente gerou um grande reconhecimento interno na NASA da importância da gestão de conteúdo. Quando o presidente George Bush anunciou publicamente a sua intenção de enviar uma nova missão à Lua, foi um grande alvoroço na NASA: muitos se perguntaram como estariam os documentos das primeiras missões e sobre a dificuldade em recuperar aquele conhecimento...
No entanto, a equipe de gestão do conteúdo anunciou, logo em seguida, que os acervos da missão Apolo - gerados na década de 60 e 70 - se encontravam digitalizados e indexados, à disposição dos cientistas. Fica a pergunta: quantas empresas no mundo são capazes de oferecer aos seus funcionários, hoje, conteúdos gerados na década de 60? Nesse momento, segundo a especialista da NASA, a área de gestão de conteúdo capitalizou um novo status na instituição.
BLOGS E GESTÃO DO CONHECIMENTO
Outro ponto alto do evento foi a apresentação da equipe da Universidade de Harvard sobre o uso de blogs para gestão pessoal do conhecimento.
As relações de trabalho em grandes empresas da América do Norte estão se tornando bastante formais e explícitas no que diz respeito às fronteiras (sempre complicadas) da propriedade do conhecimento entre o trabalhador e a empresa. Em função disso e da evolução de tecnologias tipo PenDrive, os profissionais estão buscando organizar melhor o seu acervo digital, suportando assim o conceito de "life-long learning", que significa a gestão do aprendizado contínuo ao longo da vida.
Os pesquisadores de Harvard foram claros: existem empresas que ainda não entenderam a importância da gestão do conhecimento. No entanto, nessas mesmas empresas, já existem profissionais que gerenciam sistematicamente o seu conhecimento individual.
A EXCLUSÃO DIGITAL E O E-CAMELO
Em outra sessão, uma representante da ONU coordenou um debate sobre a Sociedade da Informação, mostrando a sua preocupação com o crescente problema da exclusão digital nos chamados "países em desenvolvimento". O debate serviu de aquecimento para questões bem mais complexas que serão debatidas no Fórum Mundial da Sociedade da Informação, que acontecerá na Tunísia, em 2005 (www.itu.int/wsis/ ).
Nesse mesmo painel, um palestrante do Quênia apresentou um curioso esquema de funcionamento da intranet de uma biblioteca regional daquele país. Esse projeto contribui para a alfabetização de comunidades carentes que moram longe dos centros urbanos.
A intranet possui um módulo denominado CML (Camel Mobile System) - isso mesmo, algo como "Sistema Móvel de Camelos". Os camelos, guiados pelos assistentes da biblioteca, viajam dois dias, em média, levando cestas de livros para as comunidades. O assistente, então, registra em um notebook quais livros foram emprestados, suas devoluções e as novas requisições. Ao voltar para casa, é feito um upload na intranet da biblioteca regional. Em breve, deve-se utilizar a telefonia celular para fazer a atualização on-line. Viva o e-camelo, exemplo de superação e criatividade!
Outra apresentação interessante foi do representante da Índia, que relatou como a sociedade digital afeta os problemas da desigualdade.
De acordo com dados de 2003, existem cerca de 650 mil profissionais de TI na Índia. Eles usualmente trabalham em empresas voltadas para a exportação de software, tendo um padrão de rendimentos bem acima da média da população. Assim, está se formando uma nova elite digital, que já tem até nome: "digerati".
O palestrante mostrou sua preocupação, pois essa elite está se tornando uma nova casta no sistema social. Enquanto isso, a Índia convive com índices de 30% de analfabetos e menos de 0,5% da população tem acesso à internet em casa, apesar de ter a quinta maior rede de telecomunicações do planeta. Incrível, não?
Por fim, nessa mesma sessão foram elogiadas as iniciativas do Brasil no desenvolvimento de bibliotecas virtuais científicas. Foram explicitamente mencionadas as bases Bireme, Scielo, ScienTI e Prossiga (confira mais em www.bireme.br , www.scielo.org, www.scienti.net e www.prossiga.br ). Dá orgulho ver um trabalho brasileiro sendo reconhecido no exterior!
Por sinal, um debate quente do evento foi o do uso de intranets e portais em bibliotecas e centros de informação de empresas. No entanto, isso já é assunto para a nossa próxima coluna... Até lá!
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>> SOBRE O AUTOR: Rodrigo Baroni é consultor e autor do livro "Tecnologia da Informação aplicada à Gestão do Conhecimento". É professor do curso de Ciência da Computação da Universidade Fumec, do curso de Ciência da Informação da PUC Minas, analista de sistemas do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e Doutorando da Escola de Ciência da Informação da UFMG. Atualmente é bolsista do CNPQ (modalidade doutorado-sanduíche) na Universidade de Toronto, sendo orientado pela profa. Marta Ferreira (UFMG) e pelo prof. Chun Wei Choo, autor do livro "Knowing Organization".

